Pense se você já ouviu alguma pessoa dizendo: “O mundo é dos espertos; rico é ladrão; aqui se faz aqui se paga; mulher é tudo igual; homem não presta; a vida passa ligeiro como um sonho; amor é coisa que não existe; quem vê cara não vê coração; todo político mente; o que arde cura; quem cala, consente; antes só do que mal acompanhado; quem espera sempre alcança; devagar e sempre; é preciso amar para ser amado; só o amor constrói; vingança é um prato que se come frio; quem diz o que quer ouve o que não quer; quem tem pressa come cru; filho de peixe, peixinho é; ser mãe é padecer no paraíso; criar filho dá muito trabalho; quem semeia vento colhe tempestade; ajuda-te, que Deus te ajudará; para amar as pessoas é preciso primeiro amar-se a si mesmo; o bem que se deseja ao outro volta para a gente; a minha liberdade termina onde começa a do outro; aprenda a respeitar para ser respeitado; o essencial os olhos não vêem; quem luta da valor ao que tem; quem ama não mata; quem ama não trai; violência gera violência; cada coisa tem seu tempo; uma relação autêntica é feita com respeito mútuo”, etc., etc.
Bem, Protágoras nos ensinou que isso é assim para as pessoas que dizem isso – porque elas são a medida de todas as coisas que dizem respeito a elas!
Se uma pessoa diz: - “Somente quem foi amado pode agora amar!”, se ela diz isso, não importa que eu concorde ou discorde; importa que provavelmente isso é assim para ela. É esse o critério que ela usa para vivenciar as coisas que estão relacionadas a essa idéia.
Não se trata aqui de saber se a idéia da pessoa está certa ou errada (se é que existe certo ou errado nisso!), se é boa ou má (idem), se ela está falando a verdade ou se está me enganando, fingindo que diz a verdade. Nada disso.
A primeira lição fundamental na Filosofia Clínica é que aquilo que uma pessoa sente, vive, afirma, imagina, faz – isso é assim para ela - , independente de ser compartilhado com as outras pessoas, de ser aceito, criticado, ironizado, proibido e assim por diante. Cada pessoa é “a medida de todas as coisas”, como disse nosso primeiro filósofo . Por isso, cada pessoa sente um beijo carinhoso, o aroma do café, o vento nos cabelos, a leitura de um poema ou a audição de uma linda balada de amor, a luz macia de um luar, cada pessoa vive cada coisa de um modo único, e é ela quem saberá o prazer ou o não prazer do que está vivendo, pois cabe a ela mensurar o que vive, somente a ela... mesmo que adote as mesmas medidas de mensuração de uma outra pessoa.
Ele escreveu assim:
“O homem é a medida de todas as coisas
daquelas que são por aquilo que são e
daquelas que não são por aquilo que não são”.
Muito depois de Protágoras, outro filósofo, chamado Arthur Schopenhauer, retomou o assunto e ensinou que o “mundo é uma representação minha”, mas também advertiu que o mundo vai muito além da minha representação
Vamos explanar isso.
Por mais inteligente, conhecedor de teorias, maravilhoso como ser humano, estudioso, prodígio que você seja, ainda assim o mundo terá milhões de coisas que você não conhece nem imagina. É isso o que Schopenhauer quis dizer; está bem?
Vale o esforço conhecer um pedaço do que escreveu o filósofo:
“O mundo é representação minha... Quando o homem adquire essa consciência ...então sabe com clara certeza que não conhece o sol nem a terra, mas somente que tem um olho que vê o sol e uma mão que sente o contato de terra: sabe que o mundo circunstante só existe como representação, isto é, sempre e somente em relação com o outro ser, com o ser que o percebe, com ele mesmo... Tudo o que o mundo inclui ou pode incluir é inegavelmente dependente do sujeito, não existindo senão para o sujeito. O mundo é representação.”
Porém, estamos agora diante de um problema realmente sério. Não poderemos prosseguir sem lidar primeiro com ele.
Pense comigo uma coisa: se cada pessoa tem uma opinião somente dela, se ela vive cada acontecimento à maneira dela, se aquilo é correto, nobre, bom, justo, verdadeiro, bonito, agradável, se tudo isso é algo que somente é assim para ela, no mundo que ela representou para si mesma, então como é que fica a verdade? A verdade geral, aquela verdade que é verdade para todos nós? Será então que vamos cair agora em uma bagunça de conceitos em que todas as coisas se tornam relativas?
O que será do mundo e de nós se cada um fizer o que bem entender, alegando que na opinião dele está fazendo o que é correto?
Imagine duas pessoas brigando por terem pontos de vista divergentes sobre uma mesma questão!
"- Ora, é apenas a sua representação! – diz uma.
- E isso que você está me dizendo sobre a minha representação é somente a sua representação! – diz a outra pessoa.
- É a sua!
- Nada disso, é a sua...!"
Que maçada...
Houve um filósofo que escreveu sobre este problema em 1873. Ele, Nietzsche, explicou muito bem a confusão contando uma breve historinha. Aqui vai:
“Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem–número de sistemas solares, havia uma vez um astro, onde animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da “história universal”: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer.
Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Houve eternidades em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta que conduzisse além da vida humana. Ao contrário, ele é humano, e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como se os gonzos do mundo girassem nele.”
Por favor, não se assuste com o estilo de Nietzsche. Ele costumava escrever como quem acabou de tomar sozinho um bule inteiro do meu café puro.
Traduzindo nosso inquieto filósofo, podemos dizer que as verdades de uma abelha não são necessariamente as verdades de um pequeno ursinho panda, que por sua vez não são as verdades de uma rocha estacionada em solo lunar, que por sua vez não são as verdades de uma pessoa.
Assim, um filósofo clínico que trabalhe em alguma vila espremida contra um morro em uma das grandes cidades latino-americanas, ele pode ouvir o mesmo dito colocado por John Steinbeck em Of Mice and Men, em 1937, mesmo sendo extemporâneo:
“Todo mundo quer um pedacinho de terra, não muito. Alguma coisa que seja nossa. Um lugar onde a gente pudesse viver sem ser botado para fora. Eu nunca tive nada assim. Já plantei pra quase todos os desgraçados desse estado, mas não eram safras minhas; e quando eu fazia a colheita, ela não era minha. Mas agora isso vai mudar, pode ter certeza... Eu, Lennie e George. A gente vai ter um lugarzinho pra nós. E um cachorro e coelhos e galinhas. E também muito verde e quem sabe até uma vaca ou uma cabra.”
Essa pessoa não fala do meu ou do seu mundo. É sempre, e de qualquer jeito, o mundo dela, o mundo conforme ela entende e vive. Outro homem, na mesma situação, poderia ter um entendimento muito diferente.
Em Filosofia Clínica, há dois tipos básicos de verdade.
O chocolate quente cremoso que seus lábios tocam, os sentimentos de carinho que você experimenta, suas opiniões, seus conhecimentos, o som distante de uma flauta de pau que chega até seus ouvidos, as delicadas cores do outono, o aroma dos cabelos da pessoa que você ama, essas são as suas verdades. Então, o primeiro tipo de verdade é aquela verdade que habita seu coração, suas células, você.
O segundo tipo básico de verdade é a verdade convencionada, consensual, estabelecida em conjunto por todas as pessoas. Deste modo, o sinal verde do semáforo indica que o caminho está liberado à passagem, as horas que o relógio marca estipulam um padrão de tempo, a palavra mel tem um significado ou mais de um, conforme as convenções, e assim subseqüentemente.
Muitas vezes a verdade subjetiva de uma pessoa pode se associar harmoniosamente, ou colidir, ou negar, ou aumentar, ou refletir, ou evitar a verdade convencionada. Imagine o que aconteceria se você resolvesse namorar as mulheres de seus amigos exatamente na sociedade em que vivemos... Portanto, mesmo que cada um tenha uma verdade própria, isso não quer dizer que a pessoa tenha o direito de fazer aquilo que lhe dá vontade sem ter de prestar contas por isso.
Então, vamos adiante.
O filósofo recebeu em seu consultório a visita do velho pescador em busca de seus serviços, e agora o filósofo clínico já sabe que tudo o que o velho pescador disser ou fizer será somente uma amostra de como as coisas são para o próprio pescador. Se ele afirmar que a vida é boa ou má, difícil ou fácil, breve ou longa, sofrida, feliz, justa, dura, laboriosa, enfim, isso somente mostrará que é assim que é para o pescador.